ARTIGO ORIGINAL

 

AUTOMEDICAÇÃO EM ESTUDANTES UNIVERSITÁRIOS: UM PROBLEMA DE SAÚDE PÚBLICA

 

SELF-MEDICATION AMONG UNIVERSITY STUDENTS: A PUBLIC HEALTH PROBLEM

 

AUTOMEDICACIÓN EN ESTUDIANTES UNIVERSITARIOS: UN PROBLEMA DE SALUD PÚBLICA

 


 

Rodrigo Hiroaki Froes Matuzaki¹

João Kaique da Silva Duarte²

Victor Martin Fu³

Pedro Antonio dos Santos Neto4

Thiago Hiroshi Sato5

Tatiana Ribeiro de Campos Mello6

 

¹Discente da Universidade de Mogi das Cruzes, Mogi das Cruzes – Brasil, Orcid: https://orcid.org/0009-0007-1097-0018

² Discente da Universidade de Mogi das Cruzes, Mogi das Cruzes – Brasil, Orcid: https://orcid.org/0009-0004-1243-2967

³ Discente da Universidade de Mogi das Cruzes, Mogi das Cruzes – Brasil, Orcid: https://orcid.org/0009-0002-6042-4051

4 Discente da Universidade de Mogi das Cruzes, Mogi das Cruzes – Brasil, Orcid: https://orcid.org/0009-0004-0412-3996

5 Discente da Universidade de Mogi das Cruzes, Mogi das Cruzes – Brasil, Orcid: https://orcid.org/0009-0009-5250-4773

6 Pesquisadora principal, docente da Universidade de Mogi das Cruzes, Mogi das Cruzes – Brasil, https://orcid.org/0000-0003-4966-3633

 

Autor correspondente

Rodrigo Hiroaki Froes Matuzaki

Rua João Custódio, 141, Alto Ipiranga – Mogi das Cruzes, São Paulo, Brasil. CEP: 08730310. Telefone: +55(11) 95309-4064. E-mail: rodrigohiroakimatuzaki@gmail.com

 

Submissão: 11-12-2025

Aprovado: 24-04-2026

 

RESUMO

Introdução: A automedicação é prática altamente prevalente no Brasil, impulsionada pela facilidade de acesso, experiências prévias e influência familiar, com índices especialmente elevados entre estudantes da área da saúde. Embora comum, tal prática envolve riscos relevantes, como intoxicações, alergias e uso inadequado de medicamentos, reforçando a necessidade de compreender seus fatores associados e impactos na saúde coletiva. Objetivo: Identificar a automedicação em universitários como possível novo problema de saúde pública. Métodos: Trata-se de um estudo transversal quantitativo realizado com universitários de qualquer curso. A amostra foi investigada acerca da prevalência da automedicação, sua frequência, motivos e influências, por meio de formulário eletrônico. Os dados foram analisados no software Jamovi e o estudo foi aprovado por Comitê de Ética e Pesquisa. Resultados: Houve prevalência do sexo feminino (67,5%) e mediana de idade igual a 20 anos, além de predomínio da automedicação entre estudantes não pertencentes à área da saúde (88,88%). Além disso, 99,5% da amostra mantinha medicamentos em casa e 94,7% relataram ter utilizado fármacos nos últimos 12 meses. Também, 69,2% dos participantes compraram medicamentos sem prescrição médica e as principais fontes de orientação para a automedicação foram amigos ou familiares (48,6%). Conclusão: O estudo confirmou que a automedicação é altamente prevalente entre universitários, inclusive entre estudantes da área da saúde, influenciada por fatores culturais, armazenamento doméstico de fármacos e sintomas comuns como dor e gripe. Os resultados apontam para a necessidade de estratégias educativas e institucionais que promovam o uso racional de medicamentos, reduzindo essa prática em ambientes acadêmicos.

Palavras-chave: Automedicação; Saúde Pública; Epidemiologia.

 

ABSTRACT

Introduction: Self-medication is a highly prevalent practice in Brazil, driven by ease of access, prior experiences, and family influence, with high rates among students in the health field. Although common, this practice involves significant risks, such as poisoning, allergies, and inappropriate use of medications, reinforcing the need to understand its associated factors and impacts on public health. Objective: To identify self-medication among university students as a possible new public health problem. Methods: This is a quantitative cross-sectional study conducted with university students from any course. The sample was investigated regarding the prevalence of self-medication, its frequency, reasons, and influences, using an electronic form. The data were analyzed using Jamovi software, and the study was approved by the Ethics and Research Committee. Results: There was a prevalence of females (67.5%) and a median age of 20 years, in addition to a predominance of self-medication among students not belonging to the health field (88.88%). Furthermore, 99.5% of the sample kept medications at home, and 94.7% reported having used medication in the last 12 months. Also, 69.2% of participants purchased medication without a prescription, and the main sources of guidance for self-medication were friends or family (48.6%). Conclusion: The study confirmed that self-medication is prevalent among university students, including those in health sciences, influenced by cultural factors, home storage of medications, and common symptoms such as pain and flu. The results point to the need for educational and institutional strategies that promote the rational use of medications, reducing this practice in academic environments.

Keywords: Self-Medication; Public Health; Epidemiology.

 

RESUMEN

Introducción: La automedicación es una práctica ampliamente prevalente en Brasil, favorecida por la facilidad de acceso a medicamentos, experiencias previas y la influencia familiar, con tasas especialmente elevadas entre estudiantes de áreas de la salud. Aunque frecuente, implica riesgos importantes, como intoxicaciones, reacciones alérgicas y el uso inadecuado de fármacos, reforzando la necesidad de comprender sus determinantes y su impacto en la salud pública. El objetivo de este estudio fue identificar la automedicación entre estudiantes universitarios y discutirla como un posible problema emergente de salud pública. Métodos: Se realizó un estudio transversal cuantitativo con estudiantes de diversas áreas académicas. Se investigaron la prevalencia, frecuencia, motivos e influencias relacionadas con la automedicación mediante un cuestionario electrónico. Los datos fueron analizados con el software Jamovi, y la investigación contó con la aprobación del Comité de Ética. Resultados: La muestra presentó predominio femenino (67,5%) y mediana de edad de 20 años. La automedicación fue más frecuente entre estudiantes no pertenecientes a la salud (88,88%). La mayoría guardaba medicamentos en casa (99,5%) y los había utilizado en los últimos 12 meses (94,7%). Además, el 69,2% adquirió fármacos sin receta, siendo amigos y familiares las principales fuentes de orientación (48,6%). Conclusión: La automedicación mostró alta prevalencia entre universitarios, influenciada por factores culturales, disponibilidad doméstica de medicamentos y sintomas comunes. Los hallazgos refuerzan la necesidad de estrategias educativas e institucionales que promuevan el uso racional de medicamentos en contextos académicos.

Palabras clave: Automedicación; Salud Pública; Epidemiología.


INTRODUÇÃO

De acordo com a Notificação de eventos adversos a medicamentos feita pela ANVISA no ano de 2021, a saúde pode ser definida como um "estado de completo bem-estar físico, mental e social e não somente ausência de afecções e enfermidades”(¹). Essa definição é ampla e, muitas vezes, difícil de ser atingida. Com esse objetivo, no Brasil a automedicação desponta como hábito comum na população, que não hesita em indicar medicamentos para amigos, parentes e familiares, tornando o país um dos principais consumidores de medicamentos não prescritos(2).

Ademais, ainda que a automedicação possa trazer benefícios ao indivíduo, é inegável a existência de riscos associados à prática, de modo que a relação custo-benefício deve ser avaliada para seu uso. Entre as ocorrências, destaca-se a aplicação incorreta da polifarmácia, caracterizada pelo uso inadequado dos medicamentos e suas associações e pela automedicação inapropriada(1). Assim, é perceptível que a automedicação, ainda que de fácil acesso e simples realização, está se transformando em prática comum e, por vezes, indiscriminada, podendo causar riscos à saúde coletiva(3). Também, apesar de muitas vezes funcionar e de fato trazer o resultado esperado, a automedicação está relacionada a efeitos adversos graves, como intoxicação, alergias, resistência ao medicamento e falsa sensação de cura, o que está diretamente ligado à piora do quadro e, em alguns casos, pode levar ao óbito(4).

É sabido, também, que a automedicação tem prevalência  altíssima sobretudo na população adulta(5). A exemplo desta afirmação, indicadores mostram que 8 em cada 10 brasileiros praticam a automedicação de forma corriqueira(6). No entanto, sabe-se que entre jovens e estudantes, principalmente aqueles da área da saúde, esses números não estão distantes, chegando a mais de 90% da referida população, conforme estudo realizado em estudantes do curso de medicina de uma instituição de ensino de Alagoas, no qual apenas 1,4% dos entrevistados relataram não fazer o uso da automedicação(7). Logo, quando se observa o aumento desta prática nos anos recentes(8), fica evidente a importância de investigação de fatores que lhe causam interferências demográficas relevantes(9).

Concomitantemente, pode-se dizer que muitos motivos podem levar ao uso indiscriminado de medicamentos. Dentre eles, é possível citar a experiência anterior com os sintomas ou a doença, a crença no conhecimento sobre a doença, a falta de recursos para auxílio médico(10), além da influência familiar na indicação de medicamentos a serem utilizados, fato comum que evidencia a atual cultura de automedicação(4). Após analisarmos as motivações dentre os estudantes de medicina, observamos uma confiança no ato de se automedicar baseada nos conhecimentos adquiridos durante o curso(11).

Por fim, diversos fatores podem levar a automedicação, e a presente pesquisa explorou essa prática em universitários com o intuito de identificar um possível novo problema de saúde pública.

 

MÉTODOS

Trata-se de um estudo transversal que teve como população universitários de qualquer curso. Este estudo obteve aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade de Mogi das Cruzes.

A pesquisa foi realizada aplicando-se virtualmente o questionário sobre automedicação, utilizando-se da plataforma Google Forms, disponibilizado através de grupos fechados na plataforma WhatsApp, com uma amostra não probabilística, obtida através do método “bola de neve” com amostra de 203 participantes. Os participantes foram os graduandos de qualquer instituição de ensino superior, pública ou privada, com idade superior a 18 anos, de qualquer curso de graduação que concordaram com o preenchimento do questionário e que tenham assinado o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). Foram excluídos indivíduos que fazem uso crônico de medicamentos, que estão em tratamento médico contínuo prescrito, uma vez que podem interferir na análise dos padrões de automedicação.

O questionário iniciou com o TCLE que era necessário aceitar e seguiu-se com perguntas simples sobre automedicação no último semestre e informações sobre o seu uso. A pesquisa tratou-se de um estudo quantitativo do tipo transversal baseado na análise de dados contidos nos formulários. Essa análise permitiu obter informações que auxiliaram no entendimento da automedicação no grupo de pesquisa, além de permitir traçar o perfil dos medicamentos em uso.

Os dados foram organizados e tabulados no Google Sheets, e analisados utilizando o software Jamovi. Inicialmente, a normalidade da distribuição das variáveis quantitativas foi avaliada por meio do teste de Shapiro-Wilk. Para variáveis categóricas, foram empregados o teste do qui-quadrado de Pearson e, quando necessário, o teste exato de Fisher (especialmente em casos de frequências esperadas < 5 em alguma célula). O nível de significância adotado foi de 5% (p < 0,05).

A pesquisa está inscrita no Certificado de Apresentação para Apreciação Ética (CAEE) sob número 76028723.5.0000.5497.

 

RESULTADOS

Foram obtidas 203 respostas que atenderam aos critérios de inclusão. Quanto ao gênero (Q1), 137 participantes eram do sexo feminino (67,5%) e 66 do sexo masculino (32,5%). Ao que concerne a idade (Q2), a média foi de 21,7 anos para mulheres e 21,0 anos para homens. A distribuição etária geral não apresentou normalidade (Shapiro-Wilk: W = 0,642; p < 0,001), sendo a mediana igual a 20 anos (Tabela 1).

Em relação à instituição de ensino (Q3), 187 participantes (92,1%) eram estudantes da Universidade de Mogi das Cruzes e 17 (7,9%) de outras universidades do Estado de São Paulo. Sobre o curso (Q4), observou-se maior prevalência de automedicação entre estudantes não pertencentes à área da saúde (88,88%), quando comparados aos estudantes da saúde (64,55%). Os cursos de saúde mais representados foram Medicina (48,3%) e Psicologia (14,3%) (Tabela 2). Houve também diferença entre os períodos cursados (Q5): estudantes do 1° período relataram maior uso de automedicação (38,7%) quando comparados aos estudantes do 7º período (23%).

A maioria da amostra mantinha medicamentos em casa (99,5%) e 94,7% relataram ter utilizado alguma medicação nos últimos 12 meses (Q6–Q7). As queixas mais comuns associadas ao uso de medicamentos (Q8) foram: dor (41,7%), sintomas gripais (19,9%) e febre (4,7%). Na aquisição de medicamentos (Q9), 135 participantes (69,2%) relataram comprar sem prescrição médica. As principais fontes de orientação para a automedicação (Q10) foram: amigos ou familiares (48,6%), prescrições anteriores (30,8%) e profissionais de saúde não médicos (11,6%). Apenas 5% relataram que a medicação utilizada não resolveu a queixa inicial (Q12).

A maioria afirmou saber o que é automedicação (97,5%) e 88% relataram conhecer os riscos associados à prática (Q13–Q14).

 

Tabela 1 - Características sociodemográficas e comportamentais dos participantes da amostra

Variáveis

n(%)

Sexo

137(67,5)

66(32,5)

Idade

Média

21,4

Mediana

20

Moda

20,0

Desvio padrão

4,61

Mínima-Máxima

18-46

Instituição de Ensino

UMC

 

187(92,1)

 

Outras

Outras

17(7,9)

Guarda medicamentos em casa

 

 

Não

Sim

 

 

Por onde descobriram a medicação

 

 

 

202(99,5)

Não

1(0,5)

Essa medicação foi de prescrição médica?

Sim

60(30,8)

Não

135(69,2)

Por onde descobriu a medicação

Amigos/Família

71 (48,6)

Prescrição anterior

45 (30,8) 

Outro profissional de saúde

17 (11,6) 

Mídias

5 (3,4)

Conhecem os riscos da automedicação

Sim

178(87,7)

Não

25(12,3) 

Sabe o que é a automedicação

 

Sim

198(97,5) 

Não

5(2,5) 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Fonte: Matuzaki et al., 2025

Tabela 2 - Principais cursos da amostra

Área da Saúde

n(%)

Demais cursos

n(%)

Automedicação

103(64,77)

Automedicação

32(88,88)

Medicina

98(59,3)

Arquitetura e Urbanismo

7(18,4)

Psicologia

29(17,5)

Análise e Desenvolvimento de Sistemas

6(15,7)

Enfermagem

15(9,0)

Direito

5(13,1)

Demais cursos da saúde

23(13,9)

Outros

20(52,6)

Total

165(100)

Total

38(100)

Fonte: Matuzaki et al., 2025

 

DISCUSSÃO

A automedicação, isto é, o uso de medicamentos sem prescrição médica, é prática comum entre os universitários(12). O estudo revelou que dos 203 graduandos que responderam à pesquisa, 69,2% fazem uso de medicamentos não prescritos, tendência também encontrada em um estudo(13) que identificou a prática em 88,3% dos estudantes entrevistados. Entre as classes de medicamentos mais utilizadas estão os anti-inflamatórios e anti-histamínicos, em consonância com a taxa de 45,97% descrita nos estudos conduzidos com universitários alagoenses(7).

A pesquisa também destacou que apenas 30,8% dos medicamentos utilizados foram prescritos por um médico, evidenciando a alta prevalência da automedicação. Observou-se que a influência social de amigos e familiares foi a principal fonte motivadora para o uso de medicamentos sem prescrição, achado que corrobora estudos recentes(4). Em seguida, a orientação baseada em prescrições anteriores também se mostrou um fator relevante. Por outro lado, fontes como a mídia, profissionais de saúde não médicos, a ferramenta Whitebook (auxílio de prescrição) e os conhecimentos adquiridos durante a formação acadêmica apresentaram porcentagens significativamente menores como gatilhos para essa prática.

Entre os participantes que relataram automedicação, verificou-se que a influência das mídias digitais (3%) e a tomada de decisão baseada em estudos próprios ou buscas científicas pessoais (4%) ocorreram em proporções semelhantes. Embora a busca ativa por informações e a consulta a fontes científicas pessoais representem um comportamento mais crítico e potencialmente melhor embasado(14), os dados mostram que, na prática, sua influência na escolha do medicamento se equipara ao impacto exercido pelas mídias digitais. Esse achado sugere que, no cenário atual — marcado pela ampla circulação de conteúdos sobre saúde nas plataformas digitais(15), tanto a pesquisa individual quanto a exposição midiática acabam exercendo níveis semelhantes de influência sobre a decisão de automedicação.

 É importante salientar que o meio acadêmico constitui ambiente que favorece o adoecimento físico e emocional dos alunos,. especialmente dos estudantes da área da saúde(12), em virtude não somente da elevada carga horária, mas também da dificuldade do conteúdo programático e da alta competitividade entre os pares, gerando ansiedade e estresse. Além disso, durante a universidade ocorrem profundas transformações para que um indivíduo transicione da fase de adolescente para as responsabilidades de um jovem adulto(16), alterações estas que, somadas às demandas do curso, problemas familiares, dificuldades de aprendizagem e conflitos psicológicos, podem favorecer ou reforçar o uso da automedicação.

Em consonância, a literatura constata que a principal classe de medicamentos utilizada entre os estudantes a fim de diminuir as aflições geradas pelo cansaço inerente à transição ao ensino superior, são os antidepressivos(17), medicações que atuam diretamente na via do sistema nervoso central. No presente trabalho, dos 203 estudantes que responderam à pesquisa, 13 (6,4%) afirmaram já ter feito uso de medicações psicotrópicas, incluindo ansiolíticos, hipnóticos, antidepressivos, antipsicóticos, psicoestimulantes e opioides. Destes, apenas 4 indivíduos relataram ter feito uso da medicação por prescrição médica e 9, além dos medicamentos com ação nervosa central, se automedicaram também com fármacos de outras classes.

Assim, é inegável que esta modalidade de tratamento para transtornos ansiosos e depressivos deve ser tomada de maneira cautelosa, uma vez que junto das referidas medicações também é necessário que haja o tratamento com modalidades não medicamentosas, como a psicoterapia, além do fato destes fármacos poderem apresentar efeitos colaterais e interações farmacológicas possivelmente prejudiciais ao usuário(18), principalmente quando associados a automedicação para outras doenças ou sintomas.

Dos sintomas citados, os mais prevalentes foram os de dor no corpo em geral, sendo que a porcentagem em relação ao número total de sintomas relatados foi de 46,7% (Tabela 3) aproximadamente, assim como já observado em uma pesquisa(19) conduzida com estudantes do ensino superior em saúde, no qual foi encontrado uma prevalência de 29% da amostra, demonstrando que sintomas mais genéricos, como a dor, são os motivos mais comuns para a prática referida. Ademais, no referido estudo, sintomas como febre e inflamação (relacionados a gripe) tiveram uma prevalência de (24,4%), concordando com os resultados obtidos nesta pesquisa até o presente momento, nos quais foram relatados 23,4%, podendo ser motivo de análise futuramente.  

 

Tabela 3 - Principais queixas e medicações relatadas

Queixa

n(%)

Medicamentos

n(%)

Dor

177(46,7)

Analgésicos e Antitérmicos

sAntitérmicos

151(32,9)

 

Febre

18(4,7)

Rinite

24(6,2)

Antialérgicos

19(4,1)

Gripe

30(7,8)

AINEs

25(5,4)

Alergias

18(4,7)

Outras medicações

263 (57,4)

Demais sintomas

114(29,9)

 

Total

381(100)

Total

458(100)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Fonte: Matuzaki et al., 2025

Finalmente, ao passo que alguns aspectos referentes a automedicação, como a incidência e a influência do uso de medicamentos não prescritos por profissionais da saúde, se mantêm em concordância com estudos anteriores(4,13), outros fatores sofreram alterações com o passar do tempo, a exemplo da queixa principal motivadora da automedicação(19), conforme já comentado.

 

CONCLUSÕES

O presente estudo evidenciou que a automedicação constitui prática altamente prevalente entre graduandos do ensino superior, independentemente do curso frequentado. Observou-se que a maior parte da amostra referiu ter feito uso de medicamentos sem prescrição médica nos últimos 12 meses e foi possível identificar predomínio do armazenamento doméstico de fármacos, fator diretamente relacionado à prática da automedicação(20).

Ademais, os dados revelam que estudantes do ensino superior em saúde apresentam taxas semelhantes e, em certos casos, até mesmo maiores em relação à prática da automedicação, ainda que sejam também aqueles com maior conhecimento técnico a respeito dos riscos envolvidos. As principais queixas que motivaram a automedicação na amostra foram dor, sintomas gripais e febre, reforçando o padrão descrito na literatura para populações jovens, conforme discutido anteriormente. Além disso, grande parte dos estudantes adquiriu medicamentos devido à influência de amigos, familiares ou prescrições antigas, evidenciando a persistência de fatores culturais e comportamentais que sustentam essa prática(21).

Não somente, a pesquisa evidenciou que a automedicação entre universitários permanece como uma prática frequente, influenciada tanto pela exposição às mídias digitais quanto pela busca ativa por informações científicas pessoais, ambas com proporções semelhantes. Esse equilíbrio entre fontes distintas de informação reforça o impacto do ambiente digital contemporâneo, no qual conteúdos sobre saúde circulam amplamente e influenciam decisões relacionadas ao uso de medicamentos.

Além disso, fatores emocionais e acadêmicos próprios do período universitário,  especialmente entre estudantes da área da saúde, desempenham papel relevante nesse comportamento. A elevada carga horária, as pressões inerentes à formação profissional e as transformações típicas da transição para a vida adulta contribuem para o estresse, a ansiedade e o adoecimento psicoemocional, favorecendo a procura por soluções rápidas, como a automedicação. O uso crescente de psicotrópicos, como antidepressivos, é um indicador relevante desse cenário e reforça a necessidade de maior atenção, considerando que tais fármacos exigem acompanhamento profissional e integração com intervenções não medicamentosas.

Dessa forma, os achados se encontram em conformidade com a literatura a respeito do tema(21, 22) e reforçam a necessidade de estratégias institucionais e educativas que promovam o uso racional de medicamentos e ampliem a conscientização dos riscos associados à automedicação, especialmente em ambientes universitários. Intervenções dirigidas aos primeiros períodos dos cursos, bem como ações de orientação continuada, podem contribuir para a redução da automedicação e para a promoção de práticas de saúde mais seguras entre os estudantes(23).

 

REFERÊNCIAS

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Fomento e Agradecimento

Esta pesquisa não recebeu financiamento.

Declaração de disponibilidade de dados

Não foram gerados bancos de dados neste estudo. As informações apresentadas estão descritas no corpo do artigo

Declaração de conflito de interesses

Nada a declarar.

Contribuição dos autores

Todos os autores contribuíram substancialmente: na concepção e/ou no planejamento do estudo; na obtenção, na análise e/ou interpretação dos dados; na redação e/ou revisão crítica e aprovação final da versão publicada.

 

Editor Científico: Ítalo Arão Pereira Ribeiro. Orcid: https://orcid.org/0000-0003-0778-1447

 

Rev Enferm Atual In Derme 2026;100(3): e026086